Suriani
- 29 de out. de 2015
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Suriani nasceu e foi criado em São Paulo. Em 2002, quando estudava Arquitetura e Urbanismo na Universidade de São Paulo, sentia a necessidade de se relacionar com a cidade através de sua arte. Ele encontrou no grafite e na colagem uma forma eficaz e transgressora de viver a cidade. Em 2007 se mudou para Paris para iniciar um mestrado em Belas Artes na Université Paris VIII. Lá, ele logo integrou a cena de arte de rua local.
Seu trabalho consiste em inserir em quadros pintados à mão, personagens híbridos no contexto urbano, inspirados na diversidade cultural das cidades modernas. Suas intervenções relacionadas a subculturas locais alternativas, culturas Clube, moda de rua e cada sublevação ou tema controverso que a habitação na cidade pode trazer.
R: Como você se considera um artista exclusivamente de rua?
S: Não, sou um artista de atêlie, de rua, acho melhor, profissionalmente. Às vezes em casas noturnas, acho que sou também artista de rua, mas isso não me classifica.
R: Como você definiria sua arte de rua?
S: Ela é uma arte livre. Ela não precisa de validação. E o contato com o público é muito direto. Livre e transgressor.
R: Como você definiria o que é, e o que não é arte?
S: Essa pergunta é muito complexa. Acho que cada uma tem sua visão. Para mim, arte é o que o artista diz que é arte. Então, quando uma ação é feita com o intuito que aquilo é arte, ela se torna arte.
R: Quais foram os temas na sua arte?
S: Especulação imobiliária. Imigrantes bolivianos. Temas mitológicos, homens híbridos animais. E agora, as Drags, que possuem uma pegada mais política.
R: Qual sua inspiração?
S: Rock, Hip Hop, Quadrinhos, Pop Arte, apesar de não dizer que sou fã de Pop Arte, não é de propósito. Tem muitas coisas que me inspiram e me movem.
R: Já teve alguma eventualidade ruim sobre suas colagens?
S: Houve um caso, em Paris, que eu estava fazendo uma colagem e um homem começou reclamar que eu estava ensinando pudor. No dia seguinte estava rasgada. Mas, se eu estou me dando ao direito de colar, dá ao direito de outro tirar.
Em São Paulo, foi depois de cinco minutos de ter colado. E, como o muro estava todo pichado, acredito que foi pelo conteúdo, pois estava colando a figura de uma Drag Queen.
R: Teve algo que te inspirou no universo das Drags?
S: A arte da Drag surpreende a cada performance, cada uma tem um universo: o cômico, ou mesmo de visual, ou sombrio. A arte da Drag é tão vasta que surpreende a cada performance.
R: Você acredita que a sociedade encara o meio das Drags de forma melhor?
S: Acredito que ainda está longe disso. Na nossa nova geração, está um pouco mais natural. Está transitando pela mídia, mas ainda muito somente pela internet. É ainda um público muito jovem, gay, e ainda das grandes cidades e conectadas a internet.

R: Como você encara a arte brasileira?
S: O Brasil é muito rico artisticamente em geral, na música, dança, artes populares, folclore, arte contemporânea. A arte brasileira é muito rica. O Brasil é um país riquíssimo na arte. Talvez pela mistura cultural. Mas acho que ainda é mais difícil ser artista no Brasil do que em outros países, como a França, que é onde conheço melhor, onde existe mais incentivo, mais espaço circuitos artísticos, acho que tem mais espaço para todos. O governo na França é o principal incentivador da arte.
R: Em algum momento você busca migrar de tema?
S: Ainda vou explorar bastante esse tema. O gênero. A androginia. Tudo isso me fascina.
Outro tema que me interessa muito é o circo.
R: E sobre a repercussão mediática que ocorreu?
S: Eu comecei há um ano quando teve as leis ligadas a adoção pelo mesmo sexo e grande parte da população de Paris começou a se manifestar contra. Foi quando eu achei que deveria me manifestar a favor. E as Drags foram a melhor forma de representar isso, porque elas são alegres, positiva. E aqui no Brasil o público acolheu de braços abertos. Tenho aparecido na televisão, em livros, muitos jornalistas têm se interessado, muitos trabalhos acadêmicos, os jovens estilistas tem se interessado nesse universo. Não sei se é uma moda, ou se veio como mais um elemento que veio pra ficar como arte urbana.
R: Você busca ser reconhecido?
S: Todo artista busca ser reconhecido, mas eu busco fazer uma arte que faça sentido. Pra mim, e, claro, para o público. Mostra que faz sentido o que estou fazendo. E reconhecimento mostra que outras pessoas também se identificam com o que eu estou fazendo.
R: Como as Drags se sentem ao serem representadas?
S: Elas dizem que se sentem homenageadas. Elas gostam bastante.
R: Que tipo de material você utiliza para produzir suas obras?
S: Eu tiro cartazes da rua, ai crio a composição com eles no fundo, pinto direto na tela ou pinto em um papel e colo sobre os outros papéis. E na rua é papel, pinto com pincel e tinta acrílico e faço a composição com o meio urbano.
R: Qual Drag você admira?
Dor Deleno, Divene, uma clássica do cinema. No Brasil, a que mais se destaca é o Ikaro Kadoshi, do qual me tornei amigo, e a Malonna, que apesar de serem Drags muito diferentes, elas são muito completas. Apesar de serem jovens, já chegaram a uma maturidade artística. Mas, no fim, todas que eu retrato são as que eu admiro.

Exposição It's not personal, it's Drag!
São Paulo, abril de 2015.




















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